ALUNO DE 7 ANOS DESTROI A ESCOLA. O que você faria?

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Essa semana correu pela internet o vídeo de um garotinho de sete anos que, durante um acesso de raiva, destruiu uma sala de sua escola (veja aqui). Observo essa triste cena – ciente de que é apenas mais uma entre as centenas que acontecem todos os dias – e sabe o que enxergo? A desordem da alma de uma criança. Se pudéssemos ter um dia de super-nanny e observar a sua rotina, o seu dia-a-dia e conhecer seus cuidadores, certamente encontraríamos as respostas e explicações para essa cena lamentável.

Observando as reações dos internautas, pude notar corações enraivecidos e indignados com o comportamento da criança: “Ele tem que apanhar!”, “Ah, se fosse meu filho!”, “Eu arrastava pela orelha…”, “O que falta é chinelada na bunda”… Então pensei: será que estou equivocada em achar que o problema do vídeo não é o garoto? Até que escutei a posição do renomado pediatra Daniel Becker, fundador da “Pediatria Integral”:

“Se tem algo de muito errado nesta cena, é sem dúvida o comportamento dos professores”.


Tive que conter o choro, pois era isso mesmo que estava pensando e sentindo. O que será que passou pela cabeça desses profissionais ao desafiarem a criança dessa forma? As expressões ditas por trás da câmera, a filmagem em si e a plateia de adultos, passam uma mensagem extremamente negativa ao garoto a respeito de quem ele é e um dia poderá se tornar. Uma criança pede por socorro e seus educadores decidem expô-lo ao ridículo. Uma abordagem diferente teria evitado toda essa situação. Uma criança só tem o poder que é dado a ela.
Se a preocupação era a de registrar a cena para evitar algum tipo de processo por violência, que fizessem de forma discreta e em hipótese alguma divulgassem pela internet. Com isso prejudicaram não só a criança, mas também a própria imagem, carreira e reputação. O garoto ter sido filmado em situação de vulnerabilidade, exposto em seu sofrimento, representa crime contra a infância diz o Estatudo da Criança e do adolescente.
Muitos levantaram a questão de que isso não acontecia na época dos nossos pais e avós. Será que havia mais rigidez com as regras e disciplina? Deveríamos retomar o militarismo nas escolas? O psicanalista Paulo Bregantin responde:
Estamos vivendo um tempo estressante para as crianças, pois as informações chegam de forma muito mais rápidas e, com isso, as fases estão chegando mais rápidas também […] A nós cabe, se é que posso escrever isso, estudar, avaliar e entender as dores e doenças psicossomáticas que afligem a nossa geração. Os tempos mudaram, as pessoas evoluíram e as doenças também. Creio que não podemos tratar doenças novas com tratamentos antigos e, nem cuidar das crianças como cuidávamos antigamente. O novo quando chega gera medo e angustias e uma possibilidade para melhorar isso é enfrentando-o com sabedoria e paciência.”
Hoje já é sabido pela ciência que uma criança (e também um adolescente) ainda não está com as áreas do cérebro que comandam as decisões e controle das emoções completamente desenvolvidas (sistema límbico e córtex pré-frontal), por isso necessitam da supervisão e orientação constantes dos adultos. Ou seja, este pequeno “recorte” da vida do garotinho que vimos no vídeo, é nada mais nada menos que um pedido de socorro: “Ei, preciso de limites! Me ajudem, não sei como fazer isso!”

Nenhum ser humano pode controlar suas emoções, elas simplesmente acontecem. O que aprendemos no decorrer da vida é administrar as nossas reações, mas não impedir que uma emoção se manifeste. Uma criança que cresce num ambiente sadio, que está com a sua saúde emocional em ordem, que se sente aceito e amado pela família e escola, certamente não reagiria dessa forma quando o sentimento de raiva fosse desperto. Se reagiu assim, é porque algo dentro dela e também no meio em que vive não está colaborando para que aprenda a expressar suas emoções de forma sadia.

 
O que o levou o garotinho a reagir dessa forma? Ele não ficou assim de graça. Algo ou alguém despertou essa ira.
 
Supondo que ele realmente tenha sérios problemas emocionais, familiares e de educação (o que acho bem provável), qual seria a reação esperada por parte dos educadores nessa situação, pensando que temos a intenção de ajudá-lo a entender suas questões e a lidar com seus conflitos internos? Será que filmar, repetir diante de uma plateia de adultos as frases “chama a polícia”, “chama o bombeiro…”, “solta ele, deixa ele…”, “vai, isso, derruba a estante…” e depois divulgar o vídeo na internet seria mesmo uma atitude sensata?
Partindo do princípio de que “a resposta branda acalma o furor” será que uma abordagem amorosa não surtiria um efeito mais produtivo e positivo? Será que o trabalho de espelhar o sentimento para que ele conseguisse expor suas dores de forma equilibrada não fosse uma saída mais inteligente? 

“Fulano (abaixando e olhando em seus olhos), eu sei que está com muita raiva, algo deve estar te deixando muito triste e bravo não é? Sabia que já me senti assim muitas vezes?” e continuar o diálogo longe dos “holofotes” até que ele se sentisse confortável e seguro para se abrir. Sim, quem sabe até esperar um tempo para que extravazasse a raiva e viesse a se acalmar, num lugar mais aberto e seguro para que em seguida houvesse a conversa firme e branda, o contato com a família e o acompanhamento.
Criança não tem maturidade alguma para estabelecer limites, este papel pertence aos adultos. Elas gritam por isso: “Ei, me diga até onde posso ir! Me corrija, me ensine, me dê uma direção, me mostre o caminho!” Esse menininho provavelmente não aprendeu a viver com limites, nem em casa e nem na escola. A criança é fruto do meio em que vive. O que vê e ouve, espelha em suas ações. Entre um sermão bem dado e o exemplo dos responsáveis, no geral a criança reproduz aquilo que observa. Não acho que temos que colocar sobre os ombros dos educadores a responsabilidade da criação dos alunos, que obviamente é papel da família. Mas e quando a família não cumpre seu papel? Quando não assume a responsabilidade? Será que filmar, expor, ridicularizar e incitar o mau comportamento ajuda a melhorar a situação? Por um lado, vejo que os profissionais da educação, por falta de apoio e valorização, estão fatigados, desanimados e emocionalmente doentes e, por outro, crianças perdidas, fruto de uma sociedade falida. Doentes cuidando de doentes. O Brasil está doente!


Não sou psicóloga, apenas uma curiosa, estudante da psicanálise e amante da mente e do comportamento humano. Falo com embasamento no que aprendi depois de treze anos trabalhando com crianças (oito em comunidades carentes), nove sendo mãe e também através de estudos. Concluo meu pensamento a respeito da questão parafraseando minha amiga e psicóloga Simone Fiores:

“O fato é que essa criança precisa de ajuda (e nossos educadores também!) e, claramente, não é da polícia.”
 
Daniela Marques
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About Author

Daniela Marques é escritora, esposa e mãe de dois. Formada em Design de Interiores e graduanda em Psicologia. Edita e desenvolve conteúdo para os blogs 'Salve Meu Casamento' e 'Educando na Contramão'. Autora dos livros O coração vermelho, Tem princesa que..., Iguais e diferentes e Quando nasce um coração. Ama o que faz! Conheça também suas obras infantis em: Facebook/DaniMarquesEscritora e @danimarques_escritora

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