ABORRESCÊNCIA… DÁ PRA SER DIFERENTE?

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Quando pensa em adolescência, quais as primeiras palavras que surgem na sua mente? Acho que posso adivinhar algumas:

Instabilidade, confrontos, conflitos, rebeldia, hormônios, transformação, independência, isolamento…

E aí, acertei? Eu também penso nelas. Mas sabe, sempre fui aquele tipo de pessoa que carrega uma pulguinha atrás da orelha quando o assunto é comportamento. Sempre tive o ímpeto de questionar as ditas “verdades” e buscar o porquê de todas as coisas. E, a respeito da adolescência, sempre fiz os seguintes questionamentos:

“Se a adolescência é um período de rebeldia, instabilidade, confronto e que traz muita dor de cabeça à família, o que acontece com os adolescentes que não se encaixam nesse perfil? Por que conseguem passar essa fase de forma tranquila? O que eles tem de diferente? Se descobrirmos, será que não seria um meio de poder alertar e ajudar as famílias que estão prestes a vivenciar este período turbulento?

Pois bem, foi fuçando e pesquisando que descobri que o estereótipo de adolescente que temos hoje (esse que falamos logo no começo do texto) é uma construção social e não 100% biológica. Ou seja, o ser humano não traz em sua herança genética os genes da rebeldia na adolescência. E como foi que descobri isso? Estudando o comportamento de adolescentes de outras épocas e culturas. Olha só, não precisamos ir tão longe. Converse com seus familiares e tente descobrir como foi a adolescência dos seus bisavós, por exemplo. Provavelmente vai escutar palavras como trabalho, obediência e responsabilidade. Muito diferente do cenário atual, não?

Se observarmos também algumas culturas diferentes da nossa, como as das tribos indígenas, veremos que os garotinhos e garotinhas, por volta de 11 /12 anos, passam por um ritual de transição para a vida adulta. O menino sabe que após esse momento especial terá a mesma responsabilidade dos adultos e tem total ciência de que ali não haverá espaço para a instabilidade, rebeldia ou confrontos frequentes. É bem possível que isso nem passe pela sua cabeça. O mesmo acontecia com os garotos e garotas no início do século XIX, que bem cedo já tinham suas responsabilidades. Cuidavam da casa, dos irmãos menores e a maioria, logo cedo, já ingressavam no mercado de trabalho vendendo jornais, ajudando o dono da mercearia, limpando casas, arando a terra e etc.

Então, através dessa lógica simples, podemos concluir que o organismo do ser humano não vem programado para a rebeldia, instabilidade, desequilíbrio ou conflitos no período da adolescência. Sim, é uma momento de transição, existem transformações significativas e, apesar da área do cérebro responsável pelo controle dos impulsos e tomada de decisões conscientes amadurecer bem mais tarde, o fato é que, aquilo que é construído socialmente, ou seja, as relações sociais do indivíduo e o ambiente em que ele se desenvolve, exerce uma força muito maior e tem o poder de tornar (ou não) o adolescente predisposto a um comportamento “aborrescente”. A prova disso são os indivíduos que passam ilesos a essa fase (ilesos no sentido de não causarem grandes estragos e transtornos à família e à sua própria vida).

O grande problema é que, quando definimos a adolescência como isto ou aquilo, estamos construindo significações que constituirão os sujeitos lá na frente. Ouvi certa vez de um médico hebiatra (especialista em adolescência) uma frase que me deixou bastante pensativa: O que um garotinho – que passou a infância escutando que adolescente é rebelde, confrontador, instável, chato –  vai ser quando chegar na adolescência a não ser aquilo que todos disseram que ele seria? Se a criança é bombardeada com esse discurso pela família, escola, amigos, sociedade e mídias em geral, fica mesmo difícil fugir do estereótipo né?

As nossas condições sociais e econômicas constroem o tipo de adolescência que temos hoje. A extensão do período escolar, a grande concorrência no mercado de trabalho, que pede cada vez mais preparo técnico e aperfeiçoamento, estendem demais a fase de afastamento para o trabalho e preparo para a vida adulta. Há muito mais espaço e tempo para ociosidade, dependência, escolhas e crises existenciais, que acabam gerando angustias e conflitos. Sem contar os meios de comunicação em massa, que exercem influência significativa, ajudando a fortalecer o estereótipo do adolescente rebelde, “esperto” e confrontador. Infelizmente poucas famílias formam jovens que conseguem realizar uma leitura crítica sobre o conteúdo que absorvem diariamente através das redes, vídeos, televisão e músicas. E pra piorar, o sistema engole cada vez mais o tempo daqueles que deveriam estar presentes nesse período fazendo a mediação do conteúdo acessado.

Mas e aí, em meio a essa triste realidade será que dá pra ser diferente? O próprio texto responde: sim, é possível! A grande questão na verdade é: COMO? Apesar de já ter sido adolescente, ainda não fui mãe de adolescente. Minha mais velha ainda está prestes a completar 11 anos, ou seja, estou prestes a vivenciar essa experiência. Mas, por já ter estudado um bocado e por ter tido a oportunidade de trabalhar por 15 anos com adolescentes, sinto que posso oferecer um conselho ou uma possível saída.

Vejo responsabilidade como palavra chave para esta fase. Observo que aqueles que receberam responsabilidades logo cedo na vida, não tiveram tempo para aborrecer seus pais. Não digo com isso que deve colocar seu filho pra trabalhar na roça das 4h as 18h, por favor, mas sim que é interessante delegar à ele responsabilidades quando estiver fora do horário de aula. Mantenha-o ocupado com esportes, cursos, trabalhos extras, tarefas de casa… E sugiro que não ofereça a oportunidade para a escolha de ser responsável ou não. Ele terá que ser responsável e ponto final.

Quando mais tempo livre e ocioso, maior será a probabilidade do seu adolescente se meter em encrenca. E as ferramentas digitais estão aí para dar todo o suporte. Triste fato! Por isso, pense em algum jeito de mantê-lo ocupado e responsável. Que toda a energia disponível nesta fase seja canalizada para atividades saudáveis. É óbvio que haverá o tempo separado para o lazer, mas esse tempo deverá ser conquistado, afinal, não é assim que a vida real funciona? Quem consegue um final de semana de descanso desfrutando de um local de lazer sem passar a semana ralando? Ou quem consegue 20 dias de férias num local especial sem ter passado o ano correndo atrás da verba para patrocinar a viagem? Diversão e lazer não caem do céu, não chegam sem esforço e suor.

Nossa casa deve ser um protótipo da sociedade lá fora. No ambiente seguro do lar a criança e o adolescente deve encontrar um espaço de treino para a vida real. Como dizem por aí, se não aprender em casa o que é disciplina, responsabilidade, limites e respeito, aprenderá lá fora, provavelmente através do sofrimento. O mundo real não disciplina por (e com) amor. Se seu filho ainda é pequeno, comece cedo delegando responsabilidades, colocando limites e aplicando disciplina. Se já é maiorzinho, sente, converse e explique a nova dinâmica, sempre mantendo o canal de comunicação aberto. Uma dica: o momento das refeições são ótimos para o exercício do diálogo aberto e transparente. Não desperdice esse momento na frente da televisão. A conversa diária, olhos nos olhos, é investimento pra vida!

E por fim, cientes de seu papel de pai e mãe, exercendo com excelência a responsabilidade que Deus os delegou (talvez a principal delas, que é formar seres humanos), coloque-se aos pés do Senhor diariamente suplicando por sabedoria do alto. Tenho feito isso há mais de vinte anos e vejo resposta clara nas ferramentas valiosas que Ele tem nos oferecido e que tanto tem ajudado na construção do caráter dos nossos dois tesouros. E mais do que sabedoria, peço humildade para entender que nada do que tenho feito vem de mim. Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas!

“Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.” Tiago 1:5

 

 

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About Author

Daniela Marques é escritora, esposa e mãe de dois. Edita e desenvolve conteúdo para os blogs ‘Salve Meu Casamento’ e ‘Educando na Contramão’. Idealizadora do Projeto Infantil ‘O Coração Vermelho’, que conta com um livro de sua autoria. Formada em Design de Interiores e graduanda em Psicologia. Ama o que faz! Conheça também suas obras infantis em: Facebook/DaniMarquesEscritora