A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA INFÂNCIA

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Entrevista concedida ao Canal Infantil

CANAL INFANTIL – QUAL A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NA INFÂNCIA?

DANIELA MARQUES – Como todo e qualquer hábito, ele precisa ser construído e vivenciado dia após dia para ser solidificado. Se não vira parte da rotina, a gente acaba esquecendo, deixando de lado, não dando valor… Sem contar que a infância é o período ideal para a construção de um hábito (seja ele bom ou ruim), pois é uma fase de grande plasticidade do cérebro e multiplicação neuronal. Em outras palavras, é o momento da vida em que o cérebro é mais maleável, disposto e propenso a aquisição de novidades e mudanças. Não que isso não seja possível em outros momentos da vida, mas na infância pode ser feito de maneira mais fácil e natural. A infância é como o fundamento de um edifício, ou seja, todo o restante da estrutura dependerá do que foi colocado ali no fundamento, logo no início da construção.

CANAL INFANTIL – COMO SURGIU A VONTADE DE ESCREVER LIVROS?

DANIELA MARQUES – Eu já escrevia para o público adulto através dos meus blogs sobre maternidade (www.educandonacontramao.com.br) e relação a dois (www.salvemeucasamento.com.br) e comecei a receber uma enxurrada de e-mails semanais com desabafos e pedidos de ajuda. Dentro das minhas possibilidades, passei a acolher os relatos, conversar e oferecer alguns conselhos. Nessa experiência, pude constatar que a maioria das questões tinham origem na infância, ou seja, no início da vida. Aos poucos fui mudando o meu olhar em relação aos conflitos e problemas presentes em nossas relações e sociedade e percebi que o trabalho de construir crianças fortes seria mais fácil e eficaz do que o de consertar homens quebrados, como disse Frederick Douglass.

CANAL INFANTIL – QUAIS OS LIVROS VOCÊ JÁ PUBLICOU?

DANIELA MARQUES – Tenho hoje quatro livros já publicados e o quinto em vias de publicação. O primeiro livro é O Coração Vermelho, que trata dos temas desigualdade e injustiça social (egoísmo/compaixão). O segundo publicado foi o livro Tem Princesa Que…, que auxilia na desconstrução de estereótipos femininos como: menina tem que brincar de boneca, dançar ballet, gostar de rosa e etc. O terceiro foi Iguais e Diferentes, que trabalha o tema Preconceito/diferenças; E o mais recente é Quando Nasce Um Coração, que trata de um tema bem atual e importante, a corrupção. Este ano pretendemos publicar o “irmão” do livro Tem Princesa Que… que vai se chamar “Tem herói que…” e auxiliar na desconstrução de estereótipos masculinos como: menino tem que gostar de brincar de carrinho, jogar futebol, gostar de azul e etc. Conheça suas obras infantis em: Facebook/DaniMarquesEscritora e @danimarques_escritora.

CANAL INFANTIL – NA SUA CASA, COM SEUS FILHOS, EXISTE ALGUMA ROTINA DE LEITURA?

DANIELA MARQUES – Desde que os nossos filhos eram muito pequenos, inserimos o hábito da leitura na rotina deles de várias maneiras. Eles sempre nos viram lendo, sempre líamos para eles e os livros estiveram sempre ao alcance em local bem visível. Além disso, construímos o hábito de conversar sobre as histórias que líamos, visando desenvolver o senso crítico, ou seja, a capacidade de “mastigar” o que está sendo lido (evitando engolir de forma passiva tudo o que lhe é oferecido). Ah! Como os amigos e parentes acompanharam esse nosso processo, nossos filhos desde sempre ganham livros nas datas comemorativas. No último Natal, por exemplo, nossa mais velha, de 12 anos, ganhou uma coleção dos avós contendo cinco livros de quase 300 páginas cada e devorou dois deles só no mês de janeiro (com muita alegria e entusiasmo). Se o hábito da leitura é construído desde a infância deixa de ser esforço para se tornar estilo de vida.

CANAL INFANTIL – QUAL A SUA DICA PARA QUE OS PAIS CONSIGAM EDUCAR AS CRIANÇAS, DESDE CEDO, COM MUITOS LIVROS?

DANIELA MARQUES – Não adianta dizer para um filho que comer vegetais é benéfico e necessário se ele não vê os pais comendo de forma rotineira. O exemplo, nesse caso, fala bem alto. Se os pais não se interessam por leitura, talvez seja bem difícil despertar o interesse nos filhos. Mas há esperança! As crianças podem ser um bom estímulo para os pais começarem a desenvolver esse hábito. Minha sugestão aos que ainda não curtem a prática da leitura, é que busquem temas que despertem o seu interesse (ficção, romance, policial…) ou dicas e sugestões com pessoas que já tenham esse hábito. Levem os filhos à livrarias, sebos ou feiras de troca de livros. Montem uma pequena prateleira de livros em casa, que seja acessível às crianças. E combinem um horário de leitura em família, onde possam ler juntos e conversar sobre a história. Se a família ainda não tem o hábito, recomendo que comecem com histórias curtas e, aos poucos (e sem pressa), evoluam para as mais compridas. O importante é começar!

CANAL INFANTIL – VOCÊ ACREDITA QUE É POSSÍVEL TERMOS UM MUNDO MELHOR SE EDUCARMOS NOSSAS CRIANÇAS, DESDE A INFÂNCIA, LEVANDO INFORMAÇÕES SOBRE OS ASSUNTOS MAIS PERTINENTES?

DANIELA MARQUES – Acredito demais na transformação de uma sociedade através do hábito da leitura. Essa prática oferece benefícios diversos como o enriquecimento do vocabulário, desenvolvimento das habilidades cognitivas (linguagem, pensamento, memória…), capacidade de senso crítico e a função terapêutica, que muitos desconhecem. O fato de uma criança ou adulto manter o hábito da leitura de uma narrativa com início, meio e fim, auxilia-o a lidar com questões caóticas internas que fogem ao nosso controle, promovendo o alívio da angústia. No exercício da leitura, colocamo-nos no lugar de personagens e vivenciamos desejos reprimidos. Além disso, estudos dizem que o ato de imaginar uma cena ou um cenário descrito numa história, produz o mesmo esforço e efeito no cérebro de uma vivência real daquela experiência. Não é fantástico? Se os cidadãos e governantes brasileiros tivessem noção da profundidade dos benefícios do hábito da leitura na construção de uma sociedade saudável, certamente isso se tornaria parte do processo pré-natal  e recomendação obrigatória nas consultas pediátricas (como já acontece em outros países).

A criança que lê com frequência fala melhor, escreve melhor, escuta melhor e tem maior capacidade de concentração. Um adolescente que cresceu lendo, torna-se sujeito de sua própria história, no sentido de que não engole como verdade tudo o que lhe é oferecido, pois tem a capacidade de reformular realidades, elaborar teorias, desenvolver de forma proveitosa conceitos éticos como liberdade, justiça, cidadania… Ele sai do lugar de massa de manobra e torna-se agente transformador de realidades! Tem uma frase de Antônio Cândido (sociólogo e crítico literário) que gosto muito e diz: “Assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem o hábito da leitura.”

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About Author

Daniela Marques é escritora, esposa e mãe de dois. Formada em Design de Interiores e graduanda em Psicologia. Edita e desenvolve conteúdo para os blogs 'Salve Meu Casamento' e 'Educando na Contramão'. Autora dos livros O coração vermelho, Tem princesa que..., Iguais e diferentes e Quando nasce um coração. Ama o que faz! Conheça também suas obras infantis em: Facebook/DaniMarquesEscritora e @danimarques_escritora